19 de julho de 2012

Entrevista da semana é com o jornalista Ricardo Mello



TRAGÉDIA - Ricardo Mello na época em que estava na TV Record do Rio na cobertura da tragédia por conta da chuva em Teresópolis  

Com 36 anos Ricardo Mello é de Ituverava, mas se considera francano. É jornalista desde os 17, muito tempo antes de se formar. Fez história pela Unesp Franca, e depois, jornalismo na Universidade de Franca.

Atualmente morando no Rio de Janeiro é editor de texto na Globo Rio. Já fez coberturas em favelas, tiroteios, esportes e cotidiano. Pensa em um dia voltar para o interior, mas ainda é cedo para deixar de lado seu sonho: trabalhar com documentários.

Veja mais o que o jornalista fala sobre carreira, sonhos e como foi parar na TV.

Conte-nos sobre sua trajetória no jornalismo.
Comecei fazendo meu próprio jornalzinho, ao lado de um amigo. Chamava-se Intercâmbio. Ele logo nos levou a sermos convidados pelo saudoso Anselmo, que era dono do Anglo, a fazer um jornal com os estudantes da escola. De lá fui para a Revista Atual, já extinta. Depois não parei mais. Trabalhei em rádio, na assessoria de imprensa da Prefeitura de Franca, na Fundação Mário de Andrade. Ao mesmo tempo escrevia para uma outra revista, onde fiquei por quatro anos. Foi nesse período que fiz minha faculdade de jornalismo, na Unifran. Ao fim da graduação me tornei gerente de Marketing da Unimed Franca.

Como foi parar na TV?
Me infiltrei na festa de lançamento da Nova TV, onde não conhecia praticamente ninguém. Me apresentei, na cara de pau, para os responsáveis pelo programa Bola Rolando (na época, apresentado pelo Marcelo Bianconi, hoje comentarista esportivo da Rede TV). Conversamos um pouco e ele me convidou para ser repórter do programa. E lá fui eu. Fazia as reportagens, editava em casa mesmo, no meu computador, levada em DVD para a emissora e lá eu coordenava o programa, que era ao vivo. Com a saída do Bianconi, assumi, meio de surpresa, a apresentação do programa. Aí o trabalho se multiplicou. Eu fazia quatro a cinco vts por semana, editava os gols da rodada, as artes com tabelas de classificação. Dava um total de 12 a 14 vts por semana, além de apresentar, ao vivo, sem tp, sem ponto eletrônico, sem nada. Para saber que já podia chamar o vt, alguém colocava no vidro um papel indicando que podia chamar a matéria, e eu chamava. Foi um período incrível, de muito aprendizado. Recebemos praticamente dos os grandes nomes do esporte de Franca nesse período. Do basquete ao Futebol, passando até pelas corridas hípicas. O programa tinha grande audiência, apesar de ser na TV a Cabo. Depois de um tempo passamos a fazer as transmissões dos jogos do Franca Basquete no Pedrocão. Eu fazia reportagem de quadra.

Mas como foi parar na TV aberta?
Dali recebi um convite e fui para a Record em Campos, RJ, e de lá vim para a TV TEM, afiliada Globo que cobre a metade oeste do Estado de SP. Depois ainda passei pela InterTV (Cabo Frio, RJ) e fui para a EPTV Ribeirão, onde fiquei por dois anos. Foi o período mais feliz da minha vida. Estava de volta na minha região, fazendo o que mais gosto no principal veículo de comunicação. Realizei o grande sonho da minha vida, que era fazer parte do time do programa Terra da Gente, e fiz reportagens em lugares incríveis. Dali surgiu um novo desafio, ser reporter de rede da TV Record. Fui para São José do Rio Preto e, apenas seis meses depois, transferido para o Rio de Janeiro, onde estou até hoje. Há pouco tempo mudei de casa novamente, e estou na Globo Rio, trabalhando como editor de texto.

Qual foi a pauta que mais te deu trabalho?
Não sei apontar uma que tenha dado mais trabalho, mas sim as que me deram mais prazer. Tenho muito orgulho de alguns trabalhos que fiz. Reportagens de comportamento, principalmente. Uma matéria sobre música clássica, que fiz na TV TEM está entre as minhas preferidas (http://youtu.be/GlF0aRR9Vso). Tem uma outra reportagem que também me orgulha muito, feita na Globo SP. Íamos fazer apenas uma nota coberta sobre um desfile de moda no Elevado Minhocão (http://youtu.be/2tpJFXErma0). Mas voltamos com uma reportagem completa para o Bom Dia SP muito divertida. Mas o que considero o melhor trabalho da minha vida, além do Terra da Gente, foi a reportagem que abriu a série de especiais pelos 30 anos da EPTV (http://youtu.be/nYefaDPdzMM). Foi muito desafiador. Recebemos a encomenda de falar sobre 30 anos, sem foco específico. Tínhamos que fazer uma reportagem sobre o tempo. As ideias foram surgindo aos poucos e fomos produzindo e gravando. O trabalho todo durou uma semana, com direito a toda a estrutura possível cedida pela emissora. Os próprios colegas a consideraram uma das 3 melhores reportagens da série, que tinha mais de 60 ao todo. Tenho muito orgulho dela.

Que tipo de matéria você gosta de fazer?
Gosto de esporte e comportamento. Já fiz de tudo, mas minha preferência é por estas editorias. Sou um brincalhão por natureza, e adoro jogar com as palavras. Não gosto muito de assuntos que deixam as pessoas tristes, já temos motivos demais pra isso. É claro que o noticiário policial, político e até a cobertura de tragédias tem uma função importante, informando e ajudando a formar o senso crítico.

Morando no Rio atualmente, você cobre tiroteios em favelas? Já cobriu alguma vez?
Muitas vezes. Já corri de bala traçante pra caramba, com colete à prova de balas e tudo. Estive em algumas coberturas muito importantes aqui no RJ. Cobri os ataques dos bandidos e a posterior ocupação policial do Complexo do Alemão. Estive no meio de vários tiroteios entre polícia e bandidos. Também cobri a ocupação da Rocinha, para a implantação da UPP, que foi um pouco mais tranquila. Cobri a visita do Obama ao Rio também, as eleições presidenciais. Como era repórter do Fala Brasil no Rio, fiz muitas pautas de grande repercussão nacional. Durante 10 dias cobri a tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, várias delas sem dormir, impressionado com as cenas tristes que presenciei. Foi o cenário mais terrível que já vi na vida. Tenho muita história e estou vivo pra contar, graças a Deus!

Pensa em voltar para o interior?
Penso, logo existo! Mas hoje estou com outro foco. Estou começando a trabalhar com documentários, até participei de um para a RTP de Portugal, e gostei muito. Estou com alguns projetos próprios em pleno desenvolvimento nessa área, e investindo muito nisso. E sabemos que o Rio de Janeiro é o melhor lugar para quem quer entrar para o mundo do cinema, por isso continuo aqui. Mas o interior é o que eu sou, né? É a minha essência. Pretendo, sim, voltar a viver no interior e em SP, de onde sinto muita saudade. Gostaria de criar condições para, mesmo longe dos grandes centros, continuar fazendo o que amo com o mesmo nível de qualidade. Este será o dia em que vou comprar minha casinha e voltar.

Qual é a dica que você dá aos jornalistas que queiram entrar para a reportagem de TV?
Tem que ter cara de pau e formar sua própria rede de relacionamentos. TV é um ambiente muito fechado, cheio de indicações e dificuldades. Eu, particularmente, nunca fui indicado para nenhum dos meus empregos em televisão, mas sei que sou a exceção da exceção. Tem que correr atrás, ligar, visitar, mostrar trabalhos, e não ter medo do desafio. TV é completamente diferente de todas as áreas do jornalismo. Aqui é preciso mais do que apenas tomar conhecimento dos fatos para levar ao telespectador. Você precisa presenciar o fato, gravar, ter as imagens, senão não vale. É mais difícil fazer TV, mas é mais prazeroso, também. Além de falar para muita gente, ela faz rir e faz chorar como nenhum outro veículo de comunicação é capaz de fazer. Sugiro nunca deixar de assistir ao Jornal Nacional, porque ele é o resumo de todas as formas de se fazer telejornalismo, nas diferentes regiões desse Brasilzão. Assista grave, refaça os textos do repórter, imagine-se fazendo uma passagem diferente. Ali está uma grande escola prática. Tenho 19 anos de carreira, e passei os primeiros 10 no impresso. Sempre quis vir para a TV, mas nunca conseguia. Por uma ironia do destino, só deu certo quando eu já estava desistindo. Não deixo mais o audiovisual. Se amanhã não estiver mais em uma emissora de TV, vou estar no cinema, fazendo documentários. Quando esse bichinho pica a gente, não tem mais cura!

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